Como reconhecer uma variedade de uva na parreira?

access_time 2019 · 01 · 30

Em várias ocasiões convidei vocês a visitar o fabuloso Jardim de Variedades de Concha y Toro em Pirque. Nele se cultivam 27 uvas. Já sabemos que elas possuem diferentes perfis aromáticos e dão vida a vinhos de variados estilos. Mas, é possível reconhecê-las por suas folhas ou ramos?

Sim. Cada variedade possui características de folhas e ramos bem específicos. A disciplina de botânica aplicada na enologia que nos permite distinguir as uvas se chama ampelografia. Este termo provém do grego ampelos (ἄμπελος): vide. O objetivo principal da ampelografia é a descrição morfológica das variedades de uva por seus ápices, ramas herbáceas, folhas adultas, cachos, etc. Na atualidade, existem ao redor de 5.000 variedades de uva cultivadas no mundo que, com as traduções, podem nos levar ao menos a 40,000 nomes.

Uva Cabernet Sauvignon Pirque Viejo
Cabernet Sauvignon

Desde o final da década de 1990, o deciframento do genoma da vide conduziu ao desenvolvimento de provas de DNA que permitiu o estudo de verdadeiras árvores genealógicas. Mas, sejamos honestos, poucas pessoas levam um kit de teste de DNA nos vinhedos. Além disso, estas provas não são baratas e são conhecidas há bem pouco tempo. Então, como podemos aplicar esta ciência?

Para reconhecer uma variedade, o trabalho é facilitado pela temporada. Vamos a Pirque. Por exemplo, em dezembro podemos ver quase todos os componentes da vide, enquanto que em março já podemos observar os cachos e a coloração da folhagem.

A folha é a chave para identificar uma variedade e seus aspectos mais importantes são: a seção da haste e a cor (frequentemente verde, mais ou menos escuro, riscos, nós, entrenós). As variedades de uva tinta podem ter uma maior acumulação de um composto chamado antocianina nos extremos, tendo na folha tonalidades avermelhadas, como no caso do Carmenere. Para as variedades de uva branca, pode-se observar um amarelamento das folhas.

Carmenere
Carmenere

Também se examina a longitude (distância entre entrenós), a forma da folha que varia desde esférica a cilíndrica, cauda de raposa (grossa e alongada), ombros (uma rama se separa, formando uma pequena saliência de uns poucos grãos) e número de lóbulos (porções de extremidades claramente separadas por seios laterais). O tamanho das folhas pode ser pequeno, médio, grande ou bem grande. Até a forma e o tamanho dos nervos da folha têm sua importância.

Alguns exemplos, segundo o “Manual de Consulta de Cultivares e Portaenxertos de Vides para Vinificação” dos autores Yerko Moreno e José Vallarino:

  • Cabernet Franc: folhas de tamanho médio, redonda, com cinco lóbulos, de cor verde; sua extremidade tem dentes de laterais retas e de porte médio. O seio se apresenta em forma de “V” com lóbulos ligeiramente sobrepostos. Bagas de tamanho médio, cor preta azulada.
  • Cabernet Sauvignon: folhas de tamanho médio, de forma redonda de cinco ou sete lóbulos, com um seio em forma de “U”, as extremidades com dentes grandes. Bagas pequenas ou médias, de forma redonda, cor preta azulada.
  • Carmenere: folhas brilhantes, redondas, com cinco lóbulos e de forma assimétrica com um dos lóbulos inferiores geralmente mais alto que o outro. O seio tem a forma de “U”, fechado e com lóbulos sobrepostos. Extremidade com dentes médios. Bagas esféricas, de tamanho variável de cor preta azulada.
  • País: folhas irregulares, com cor verde escura, os dentes são curtos. Bagas esféricas, tamanho médio, coloração varia desde preto avermelhado ao rosado irregular e com manchas de pigmentação.
  • Pinot Noir: folhas de tamanho médio, de cor verde escura, três ou cinco lóbulos. Bagas esféricas de cor preta azulada ou violeta escura de tamanho pequeno.
  • Chardonnay: folhas de forma circular, de tamanho médio, inteiras ou com 3, 4 ou 5 lóbulos, o borde de folha tem dentes curtos. Bagas de cor verde amarelada, tamanho médio.
Pinot Noir
Pinot Noir

Se algum de vocês gostaria de converter-se em um ampelógrafo profissional por um dia, primeiro devem preparar uma mochila com uma boa câmara fotográfica, filtro UV, um boné para proteger a cabeça do sol e chegar a Pirque para caminhar entre as parreiras. Um verdadeiro amante do vinho deve ser apto a reconhecer a variedade somente pelo look da parreira, pelo menos sua variedade favorita. A formosa folha de Pinot Noir, por exemplo, levo gravada em meu coração.

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