Tanoaria: um ofício ancestral

access_time 2020 · 07 · 30

É assim que se chama a arte de fazer barris (ou tonéis), um ofício que ainda resiste no universo do vinho e que, graças às mãos dos artesãos, permite-nos saborear vinhos redondos e repletos de caráter. 

Os barris de madeira são essenciais na produção de vinhos e há séculos fazem parte de sua história. Foram os antigos romanos e fenícios que começaram a utilizá-las para transportar e manter o vinho em boas condições, após as ânforas de barro terem sido consideradas frágeis e difíceis de lidar. Tomaram a ideia emprestada dos franceses, que logo também começaram a deixar o vinho fermentar e envelhecer em barris quando descobriram que a madeira permitia uma oxigenação moderada, além de proporcionar à bebida sabores, suavidade e complexidade. 

De geração em geração 

Assim, desde a Idade Média, a fabricação de barris foi promovida à categoria de arte, uma arte que vem sendo forjada há séculos graças ao trabalho dos tanoeiros, que transmitem seu conhecimento de geração em geração, muitas vezes de pai para filho. É um artesanato que se mantém em família; afinal, para adquirir este saber, é preciso ser aprendiz de um tanoeiro com vasta experiência. Não se aprende em uma escola: é um ofício de caráter puramente artesanal, adquirido com a prática. O aprendiz deve ter a habilidade de observar e reproduzir com exatidão tudo o que aprendeu, e podem passar muitos anos antes de se transformar em um tanoeiro profissional que domine com precisão a técnica de fazer barris.

post-1-10
Ph: myswitzerland.com

O pequeno milagre

Pouca gente sabe que não tem nenhum tipo de adesivo ou cola unindo as aduelas de um barril. Trata-se de uma espécie de “pequeno milagre” de madeira, sem pregos nem cola. É obra de apenas um martelo e pressão. É um artesanato que, apesar da mecanização dos tempos modernos, varia muito pouco com o passar dos anos. 

Na indústria do vinho (e também nas destilarias de whiskey e de bourbon) os barris são utilizados para conferir sabor e complexidade à bebida. Os tanoeiros refinaram o processo durante vários séculos, de modo que muitos fatores contribuem para o tipo de sabor que será conferido ao vinho. 

Basicamente, os barris são feitos de peças de madeira chamadas aduelas. Antes de serem cortadas, essas peças são secadas ao ar livre (e expostas ao rigor do clima) por no mínimo dois anos, para suavizar suas características verdes, como os taninos que poderiam conferir amargor ao vinho. Assim, desenvolvem sabores e aromas mais agradáveis. Em seguida, as aduelas são cortadas na mesma altura e colocadas uma por uma dentro de dois aros metálicos, que fazem pressão sobre elas. A forma aparece no processo conhecido como tosta, e é obtida graças ao fogo à lenha colocado no interior do barril e que permite curvar as aduelas. Quando a forma desejada é obtida, são colocados o fundo e a tampa e o barril é lixado. A última etapa, e a mais importante, é certificar-se de não ter ficado nenhum tipo de fresta por onde o vinho poderia vazar.

post-3-11
Ph: Jens Fischer

Passaram séculos e pouca coisa mudou no processo. As ferramentas que os tanoeiros utilizam melhoraram um pouco, e os aros que mantêm as aduelas unidas agora são de metal ao invés de madeira. 

Uma contribuição para o vinho

Sem este artesanato, os vinhos não gozariam dos benefícios da madeira, que podem ser de diferentes tipos e origens. O carvalho francês, por exemplo, poderia conferir mais notas florais que o carvalho americano. Já o raulí chileno, com o qual são feitas as pipas no sul do Chile, confere notas mais terrosas e florais. Cedro, baunilha, coco, torrefação e, inclusive, aromas frutados podem ser extraídos da madeira e infundir no vinho, além de a madeira auxiliar na estabilização da cor, na suavidade dos taninos e na proteção do meio externo, ainda que com um intercâmbio (graças à porosidade da madeira, o vinho respira dentro dela). 

post-2-13
Ph: Demptos

No entanto, a falta de interesse das novas gerações por manter o ofício é uma ameaça para sua continuidade. Infelizmente, hoje a tanoaria é uma tradição em risco de extinção, apesar de haver tanoeiros otimistas e que garantem que, enquanto as adegas existirem, os tanoeiros também existirão. Em homenagem a eles, convidamos você a brindar com o Terrunyo Cabernet Sauvignon 2017, cujo envelhecimento de 17 meses em barris de carvalho francês fazem dele um tinto de taninos sedosos, bem estruturado e com notas sutis de baunilha.

Compartilhar

É maior de idade?

Sentimos muito,

Você não pode acessar o conteúdo do site se você não for maior de idade.