Uvas tintureiras: as manipuladoras do vinho

access_time 2019 · 02 · 22

Provavelmente, vocês nunca ouviram falar destas cepas. Por que? Porque quase nunca seus nomes aparecem nas etiquetas. Estas uvas são “filhas de um deus menor” e trabalham sigilosamente para melhorar as mesclas tintas do mundo.

“Filhos de um deus menor” é o título de um famoso filme com William Hurt e Gina Davis. Com certeza, alguns millennials não sabem do que estou falando, mas os convido a dar um Google. Vale a pena. Porém, falando sério, as variedades tintureiras não são consideradas uvas nobres e raramente um enólogo as vinifica como um vinho varietal, nem ao menos escreve seu nome na etiqueta.

Vocês podem pensar: para quê, então, se cultivam estas cepas? Ótima pergunta. Porque estas variedades nos presenteiam um mundo de cores. Porém, vamos por parte…

Aspirant Bouchet 4

O pai destas uvas foi Henri Bouschet. Em 1850 cruzou duas antigas cepas francesas (Aramon e Teinturier du Cher) e obteve duas novas variedades híbridas: Petit Bouschet e Gros Bouschet. Depois cruzou Petit Bouschet e Grenache e hoje temos a cepa Alicante Bouschet (seus outros nomes são Alicante Vero, Moratón, Romé Negro e Garnacha Tintureira). Por fim, a Aspirant Bouschet, que nasceu do cruzamento de Gros Bouschet e Aspirant, bastante conhecida no Chile e na Argentina.

No vinhedo, estas uvas se caracterizam por sua boa fertilidade, mas é na vinificação onde revelam sua tremenda personalidade. Não apenas suas cascas são tintas, como também sua polpa. O mosto, então, é intensamente colorido, além de tânico e algo áspero, com aromas de frutas vermelhas e uma equilibrada acidez.

As uvas nobres de vinhedos selecionados e rendimentos baixos oferecem uma uva preciosa e perfeita. Só não se pode cometer erros na vinificação para obter um bom vinho. De toda forma, a maioria das vinhas tem em seu portfólio vinhos de preço mais acessível, de consumo diário, agradáveis e fáceis para entender. Obviamente estes vinhos provêm de vinhedos grandes, onde se busca qualidade, mas também quantidade. Short story: os altos rendimentos diminuem a matéria corante e a estrutura tânica. Por que? Porque uma vide tem que alimentar 8 ou mais cachos com a mesma quantidade de nutrientes. É pura matemática.

cata vista vino tinto

Os enólogos, portanto, sabendo que para os consumidores a cor é garantia de uma boa qualidade, reforçam suas varietais com pequenas percentagens de cepas tintureiras. No Chile, por exemplo, a lei permite que um vinho monovarietal possa ter até 25% de outra cepa e, entretanto, o vinho pode exibir Cabernet Sauvignon ou Carmenere em sua etiqueta. De toda forma, como nosso país está focado majoritariamente na exportação, esta porcentagem baixa para 15% para estar de acordo com a normativa internacional.

Não, não se assustem. Não há nada errado com esta prática. É absolutamente natural, pois estas cepas são vitis vinífera e isso não significa trair a pureza ou estilo do vinho. Em um sentido amplo, todos os vinhos são mesclas, pois podem conter uvas de distintas cepas, vinhedos, vales e inclusive anos. Um enólogo talentoso brinca com os distintos componentes para engarrafar um vinho harmônico, onde nada falta nem sobra.

Se algum dia visitarem algum vinhedo de Tintureira, não hesitem em se divertirem com suas bagas maduras. São doces e suculentas. Vão ficar com a boca e as mãos roxas. Degustem a uva e o vinho com todos os seus sentidos, inclusive escutando o som do vinho enquanto verte na taça. Aí, nesse momento, poderão apreciar todo o poder destas cepas: a ofuscante cor tinta, roxa, vermelha vinho da Alicante Bouschet ou Aspirant Bouschet.

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