Concha y Toro

Cathrine Todd 23/03/2022

Notícias CyT

Três regiões vinícolas no Chile que se sobressaem por produzirem Pinot Noir, Cabernet Sauvignon e Carménère de ótima relação custo-benefício

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Como a variedade de uva Carménère foi confundida com a uva Merlot no Chile é um mistério para um dos enólogos mais célebres do país, Marcelo Papa, que supervisiona as linhas de vinho Casillero del Diablo e Marques de Casa Concha para uma das maiores vinícolas do Chile, a Concha y Toro, fundada em 1883. “Por volta de 1870, as pessoas no Chile queriam melhorar a qualidade do vinho e, então, naturalmente naquela época eles estavam focados em Bordeaux”, observa Marcelo. A cepa Carménère foi uma das variedades tintas de uva trazida de Bordeaux, bem como Cabernet Sauvignon e Merlot, mas por volta de 1900 os vinhos que eram rotulados como Merlot eram, na verdade, Carménère. Então, em 1994, quando o mundo estava começando a se apaixonar pelo Merlot chileno, e o país estava começando a fazer nome no universo vitivinícola, descobriu-se que grande parte do Merlot era Carménère. E então, inicialmente, foi um choque para o setor vitivinícola no Chile, pois muitas pessoas no mundo menosprezavam o Carménère por ser uma variedade desconhecida. Alguns questionaram se Bordeaux teria abandonado a cepa por ela ter pouco potencial, mas isso acabou sendo revelado como uma ideia errada, pois além de enólogos como Marcelo Papa no Chile terem demonstrado o contrário, produtores de vinho em Bordeaux estão começando a plantar Carménère novamente.

Marcelo Papa, quem está com a Concha y Toro há mais de 20anos, é conhecido como o “explorador das raízes nobres” bem como o “caçador de terroirs”, devido à sua missão incansável de explorar cada cantinho das diversas regiões vinícolas no Chile, um país com 2.600 milhas de comprimento. Esta característica de Marcelo lhe tem permitido combinar uma série de vinhedos ao longo do Chile para obter uma constância impressionante na linha Casillero del Diablo, que produz milhões de garrafas anualmente e que é vendido no varejo por $10 ou menos; o enólogo também supervisiona a produção bem mais reduzida do Marques de Casa Concha, cujo foco são vinhedos de alta qualidade em regiões vinícolas que são ideais para cultivar uma variedade específica, e que é vendido no varejo por apenas $20 aproximadamente. Uma das regiões vinícolas mais famosas é Maipo para a variedade Cabernet Sauvignon, que tem grande sucesso de vendas no mundo todo e reúne a aclamação de críticos de renome na área de vinhoss, mas convencer as pessoas de que o Chile possui uma região vinícola ideal para o Pinot Noir é uma façanha muito mais desafiadora.

Porém, encontrar os vinhedos ideais para o Carménère se tornou tão importante para Marcelo quanto encontrar a casa ideal para variedades internacionais famosas, e esta é uma das uvas favoritas deleele com certeza tem sido capaz de demonstrar sua grandeza, mesmo ela ainda sendo obscurecida pelas castas Merlot e Cabernet Sauvignon.

 

  • D. O. Peumo no vale do Cachapoal

Como a cepa Carménère provém originalmente de Bordeaux, não é de se surpreender que ela seja da mesma linhagem que as variedades Cabernet Sauvignon e Cabernet Franc. Mas uma diferença importante é que a variedade Carménère requer um período mais longo de crescimento que a cepa Cabernet, sendo então uma “variedade muito exigente em relação ao solo e ao clima”, segundo Marcelo, e é por isso que, no passado, com problemas constantes devido à geada em Bordeaux, o cultivo da variedade se tornou impraticável naquela região. Marcelo observou que a uva Carménère normalmente é a última variedade que eles colhem e é colhida no mínimo duas semanas após a uva Cabernet Sauvignon. Mas apesar de a uva Carménère tender a ser difícil, Marcelo se deixa levar pela variedade quando diz de
forma entusiástica que “ela é suave, sem o doce impacto que o Merlot tem e neste sentido eu gosto dela.” Apesar de a variedade Carménère ter casca fina, as qualidades dos taninos são “belas” se ela for cultivada no lugar correto.

A região vinícola designada D. O. Peumo no vale do Cachapoal, a 93 milhas ao sul de Santiago, é um dos melhores lugares que Marcelo encontrou para o Carménère. Ele acha que existe um conceito errado de que a uva Carménère precisa estar em clima quente, pois ele acredita que o maior problema é a geada, considerando a estação longa, e então o mais importante é plantar em uma região onde não haja risco de geada durante o brotamento na primavera ou durante a colheita no fim da temporada. O vinhedo Peumo da Concha y Toro é adequado para cultivar Carménère, pois está situado entre o oceano Pacífico e a cordilheira dos Andes, além de estar rodeado de colinas de forma que não sofre muita influência de brisas frias provenientes dos dois lados, o que evita a geada e permite um clima moderado, para que os cachos possam permanecer mais tempo na parreira. O solo poroso que permite acessar o lençol freático no vinhedo Peumo também contribui com sua mistura de argila, limo e areia –um terço de cada– que contém uma boa quantidade de nutrientes; tanto a água quanto os nutrientes contribuem para manter a longevidade dos cachos de uva Carménère na parreira.

Cabernet Sauvignon era a principal uva plantada na região de Peumo no vale de Cachapoal devido à sua popularidade, mas Marcelo observa que essa variedade não fica assim tão boa e que a uva Carménère lá era formidável, de modo que atualmente existem no local várias vinícolas com vinhedos de Carménère. A riqueza do solo, que é tão vital para a uva Carménère, é prejudicial ao vinho Cabernet Sauvignon de alta qualidade.

 

  • D. O. Puente Alto no vale do Maipo

O Cabernet Sauvignon no vale do Maipo, localizado na periferia de Santiago, foi um elemento-chave para mostrar ao mundo que o Chile podia produzir vinhos finos que fossem páreos para os grandes vinhos do mundo, bem como para mostrar a habilidade de expressar o terroir. Os vinhedos Pirque e Puente Alto, na D. O. Puente Alto, de onde provém o Marques de Casa Concha Cabernet Sauvignon da Concha y Toro, estão na área mais fria do vale do Maipo pois no local não existem barreiras para o vento, como colinas por exemplo, de forma que os vinhedos ficam expostos ao vento frio da corrente de Humboldt proveniente da Antártica. A combinação da corrente de Humboldt com a altitude do vinhedo, de 2.100 pés, contribui para estes vinhedos serem capazes de produzir Cabernet Sauvignon de clima frio. A oscilação térmica durante o dia, que pode variar de 30 a 40 Fahrenheit, é propícia para ajudar as uvas Cabernet a encontrarem um equilíbrio entre fruta madura, taninos suaves e uma boa quantidade de acidez, bem como para permitir a retenção de mais compostos aromáticos. Além disso, o solo aluvial pobre em nutrientes, com um subsolo de cascalho, faz com que a planta de Cabernet tenha que se esforçar, o que complementa seu potencial de alta qualidade.

Mas não é preciso convencer quem bebe vinho hoje dos maravilhosos vinhos Cabernet Sauvignon que estão sendo produzidos no Chile, especialmente no vale do Maipo, pois ele se tornou um lugar clássico para cultivar Cabernet Sauvignon. No entanto, convencer o universo vitivinícola de que o Chile pode produzir vinho Pinot Noir de classe mundial é completamente diferente, pois já é uma batalha conseguir fazer com que algumas pessoas julguem qualquer coisa que não seja produzida na Borgonha como digna de consideração, e mesmo quando outras regiões vinícolas são consideradas dignas de produzir Pinot Noir é devido ao fato de seus vinhedos apresentarem qualidade  similares aos vinhedos borgonheses.

  • Limarí D.O. en el Valle del Limarí

Inicialmente é difícil entender que o Chile, um país cujo clima geralmente é classificado como mediterrâneo, seja capaz de cultivar uvas Pinot Noir de alta qualidade que proporcionem vinhos elegantes. Mas os exemplos anteriores já demonstram a extrema diversidade de terroirs no Chile. O vale do Limarí, a 200 milhas ao norte de Santiago, oferece um lugar único para uma uva tão meticulosa quanto a variedade Pinot Noir, pois sua paisagem similar ao deserto apresenta uma precipitação média anual de apenas quatro polegadas, de modo que a falta de umidade é um aspecto positivo para esta variedade de uva de casca fina que pode ser suscetível a infecção por fungos em condições de alta umidade. Contudo, a região vinícola designada D. O. Limarí no vale do Limarí fica no 30o paralelo ao sul do equador, que passa também pelo Egito e pelo norte do México, então poderíamos pensar que seria quente demais. É aí que se tornar um caçador de terroirs como Marcelo é conveniente, pois ele encontrou um lugar chamado vinhedo Quebrada Seca a apenas 13 milhas do oceano Pacífico, de forma que a corrente de Humboldt pode ter uma forte influência no local, que além disso fica a 620 pés de altitude. Segundo Marcelo, a temperatura no vinhedo nunca fica muito além de 75 Fahrenheit, mesmo durante a estação mais quente do ano. Existe ainda o risco de muita intensidade de luz solar, pois a região é significativamente próxima ao equador, mas isso demonstra mais uma vez que escolher o lugar certo é conveniente, pois uma boa porção da região do Limarí apresenta céu nublado praticamente todas as manhãs, de forma que o sol passa por um filtro natural, e então as nuvens desaparecem no fim da tarde restando apenas algumas horas de sol sem filtrar para a uva Pinot Noir.

Nos solos do vale do Limarí é encontrado calcário, o que é raro no Chile, e por isso a região fez seu nome com a uva Chardonnay, que ama a elegância que o calcário pode conferir, e Marcelo produz ainda um vinho Marques de Casa Concha Chardonnay bem como um Pinot Noir do vinhedo Quebrada Seca da Concha y Toro. Mas Marcelo observa que, além do calcário, há também uma mistura de argila que produz vinhos Pinot Noir com boa concentração combinada com elegância em geral e uma sensação de mineralidade.

 

Contexto diferente, mas o mesmo resultado

Mesmo com as qualidades únicas que fazem parte do clima e da topografia do vale do Limarí, ao compará-lo a outras regiões vinícolas chilenas, a ideia de Pinot Noir de alta qualidade do Chile ainda é uma ideia que muitos se recusam a aceitar. Na verdade, o vale do Limarí é conhecido pelos vinhos Chardonnay e Syrah, com dois estilos diferentes de Syrah cultivados: um estilo de clima frio do litoral e um estilo de clima quente de vinhedos mais para o interior. Há uma espécie de santidade quando o assunto é um vinho Pinot Noir realmente bom, e podemos entender isso se conhecemos bem os vinhos da Borgonha.

Mas da mesma forma que o sucesso de alguém geralmente é medido começando por uma ascendência conceituada, seja pela história dos ancestrais, por uma educação reconhecida ou por ambos –e aqueles na Borgonha têm o histórico de grandes Pinot Noir e a educação passada de geração em geração–, com o tempo as pessoas têm se dado conta de que este não é o único caminho. Com certeza existem aqueles que não têm a oportunidade de começar a vida da melhor forma, que não têm uma orientação sólida no começo da vida e que contradizem a ideia tradicional de o que é necessário para ser bem-sucedido e, ainda assim, conseguem mudar o mundo mediante determinação e uma paixão insaciável, e este era o Chile em vários aspectos quando ele se iniciou no segmento vitivinícola. E como o Chile deu vários pulos e saltos melhorando a qualidade de seus vinhos nos últimos 30 anos, Marcelo Papa, o caçador de terroirs, não vai se contentar em descansar com o sucesso do Cabernet Sauvignon ou ainda do Carménère, pois existem lugares entre as 600 milhas de vinhedos com os quais ele trabalha ao longo do ano que as pessoas não conseguem imaginar quando pensam no potencial de vinhedos do Chile. E às vezes pode ser um pesadelo lidar com o marketing do Pinot Noir, mas ele está comprometido com aliar a uva certa com o terroir correto, mesmo que isso traga uma série de equívocos desafiadores.

* Este artigo foi publicado na Forbes na quinta-feira, 30 de dezembro de 2021.

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